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Gabriel García Márquez

Trechos de Gabriel García Márquez

“No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina ques costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com sorriso maligno, você vai ver.”

“Fazia meses que tinha previsto que minha crônica de aniversário não seria o mesmo e martelado lamento pelos anos idos, mas o contrário: uma glorificação da velhice. Comecei por me perguntar quando tomei consciência de ser velho, e acho que foi pouco antes daquele dia. Aos quarenta e dois anos havia acudido ao médico por causa de uma dor nas costas que me estorvava para respirar. Ele não deu importância: É uma dor natural na sua idade, falou.

- Então – disse eu -, o que não é natural é a minha idade.”

“Fui um mau professor, sem formação, sem vocação nem piedade alguma por aqueles pobres meninos que só iam à escola por ser o jeito mais fácil de escapar da tirania dos pais. A única coisa que pude fazer por eles foi mantê-los debaixo do terror de minha régua de madeira para que pelo menos levassem a lembrança do meu poema favorito: Estes, Fabio, ó dor, que vês agora, campos de solidão, desolados outeiros, foram noutro tempo a Itálica famosa.

“Nunca tive grandes amigos, e os poucos que chegaram perto disso estão em Nova York. Quer dizer: mortos, pois é para lá que eu acho que vão as almas penadas para não digerir a verdade de sua vida passada.”

“Encontrei Damiana esfregando o chão, de quatro na sala, e a juventude de suas coxas naquela idade me suscitou um tremor de outra época. Ela deve ter pressentido alguma coisa porque se tapou com a saia. Não pude reprimir a tentação de perguntar a ela: Diga uma coisa, Damiana: de que você se lembra? Não estava me lembrando de nada, disse ela, mas sua pergunta me faz lembrar. Senti uma opressão no peito. Nunca me apaixonei, disse a ela. E ela replicou de chofre: Pois eu, sim. E terminou sem interromper sua tarefa: Chorei vinte e dois anos pelo senhor.”

“Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.”

“Obnubilado pela evocação inclemente de Delgadina adormecida, mudei sem a menor malícia o espírito de minhas crônicas dominicais. Fosse qual fosse o assunto as escrevia para ela, nelas ria e chorava para ela, e em cada palavra se ia a minha vida.”

“O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança.”

“Então compreendi até que ponto o sofrimento havia me corrompido. Não me reconheci na minha dor de adolescente.”

“Me encantei com aqueles acertos da natureza, mas me atordoei com os artifícios: as pestanas postiças, as unhas das mãos e dos pés esmaltadas de madrepérola, e um perfume de dois tostões o galão que não tinha nada que ver com o amor.”

“Desde então comecei a medir a vida não pelos anos, mas pelas décadas. A dos cinqüenta havia sido decisiva porque tomei consciência de que quase todo mundo era mais moço que eu. A dos sessenta foi a mais intensa pela suspeita de que já não me sobrava tempo para me enganar. A dos setenta foi temível por uma certa possibilidade de que fosse a última. Ainda assim, quando despertei vivo na primeira manhã de meus noventa anos na cama feliz de Delgadina, me atravessou a idéia complacente de que a vida não fosse algo que transcorre como o rio revolto de Heráclito, mas uma ocasião única de dar a volta na grelha e continuar assando-se do outro lado por noventa anos a mais.

Gabriel García Márquez – Trechos de Memória de minhas putas tristes. Editora Record. 2005.

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"Sempre zombei de pensadores que nunca zombaram de si mesmos." Nietzsche

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